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Déficit de R$ 196 milhões revela o preço da estratégia do Palmeiras no mercado em 2026

Com a missão de competir, Palmeiras escolheu o campo e a conta apareceu. SEP colocou o futebol à frente do balanço e agora precisa fechar a conta O Palmeira...

Déficit de R$ 196 milhões revela o preço da estratégia do Palmeiras no mercado em 2026
Déficit de R$ 196 milhões revela o preço da estratégia do Palmeiras no mercado em 2026 (Foto: Reprodução)

Com a missão de competir, Palmeiras escolheu o campo e a conta apareceu. SEP colocou o futebol à frente do balanço e agora precisa fechar a conta

O Palmeiras chegou ao fim de agosto com um número que, isoladamente, aponta um déficit acumulado de R$ 196 milhões, sendo R$ 39,6 milhões somente no mês. O problema é que olhar para esse valor sem olhar para o futebol produz uma fotografia sem legenda. O clube havia projetado resultado positivo para o período, mas também tomou durante a temporada uma decisão que ajuda a explicar a distância entre o planejado e o realizado, já que segurou jogadores importantes em vez de transformá-los imediatamente em receita.

Essa é a contradição interessante. A SEP não chegou a esse resultado simplesmente porque perdeu o controle das contas. O clube aceitou conviver com uma pressão financeira maior para preservar um elenco capaz de disputar três competições. No orçamento de 2026, a previsão era arrecadar R$ 399,6 milhões com negociações de atletas, uma receita que representava parcela relevante de um orçamento total projetado em cerca de R$ 1,2 bilhão. O futebol, porém, não costuma respeitar a pontualidade das planilhas, pois vender um jogador em janeiro pode ser excelente para o balanço e péssimo para uma temporada que começa em fevereiro.

A escolha ficou particularmente evidente no primeiro semestre. O Verdão recusou propostas por jogadores importantes porque a prioridade era manter a força do elenco. Em agosto, por exemplo, a equipe ainda trabalhava distante da meta de vendas justamente porque havia decidido preservar seus principais atletas. O clube calculava ter chegado a cerca de R$ 344 milhões em negociações quando a venda de Allan ao Manchester City foi encaminhada, equivalente a aproximadamente 86% da meta anual. Não é pouca coisa. Mas também é o preço de manter determinados ativos dentro de campo em vez de colocá-los imediatamente no mercado.

Allan tornou-se o personagem perfeito dessa equação. O Clube queria mantê-lo, mas a proposta do Manchester City mudou a conta: a negociação foi encaminhada por cerca de R$ 240 milhões entre valores fixos e bônus. O curioso é que o negócio não desmente a estratégia anterior; ele revela o seu limite. Até determinado ponto, o valor esportivo de ter Allan no elenco justificava não vendê-lo. Quando apareceu uma oferta capaz de alterar substancialmente a equação financeira, a direção mudou de rota.

O dilema no modelo de gestão palestrino

É aí que o déficit começa a dizer algo sobre o modelo de gestão palestrina. Um jogador mantido no elenco não desaparece do patrimônio, mas deixa de cumprir, naquele instante, a função de virar dinheiro. Em compensação, pode cumprir outra, mais difícil de medir: ajudar o time a ganhar. Premiações, bilheteria, patrocínios, direitos comerciais e a própria valorização dos atletas dependem, em alguma medida, de o Palmeiras continuar competitivo. O clube, portanto, fez uma aposta bastante conhecida no futebol ao abrir mão de uma receita imediata para tentar preservar a possibilidade de receitas maiores produzidas pelo desempenho esportivo.

Só que aposta continua sendo aposta, mesmo quando feita por uma administração profissional. Até julho, por exemplo, o Maior Campeão do Brasil havia acumulado R$ 617,5 milhões em receitas, contra R$ 778,5 milhões previstos para o período, e registrava déficit de R$ 156,4 milhões. A diferença estava diretamente associada à decisão de não negociar os principais jogadores. A venda de Allan e outras operações posteriores começaram justamente a funcionar como a segunda metade dessa equação.

Kaique e Riquelme Fillipi ajudam a completar o raciocínio. O goleiro foi negociado com o Sporting por cerca de R$ 24 milhões, enquanto Riquelme seguiu para o Inter Miami por aproximadamente US$ 6 milhões. Somadas a Allan e outras operações, essas transferências recolocam o Palestra mais próximo da meta estabelecida no orçamento. O curioso é que a recomposição financeira acontece depois de o clube ter passado boa parte do ano fazendo exatamente o contrário, protegendo ativos para proteger o futebol.

Déficit é mais complexo quanto parece

Isso também explica por que seria simplista tratar os R$ 196 milhões como um rombo que resume toda a situação financeira das Alamedas. O próprio balancete de agosto ainda não incorporava integralmente a venda de Allan, e a expectativa da diretoria é de melhora significativa nos números a partir de setembro. Ao mesmo tempo, seria igualmente simplista concluir que basta contabilizar as vendas e a questão desaparece. O resultado mostra que existe uma distância relevante entre o calendário do caixa e o calendário do futebol e administrar essa distância é justamente uma das tarefas mais delicadas de um clube que pretende competir no topo.

O paradoxo Alviverde e o preço para se manter competitivo

Há uma espécie de paradoxo no modelo palmeirense. Para ser competitivo, o clube precisa ter jogadores valorizados. Para transformar essa valorização em receita, precisa vendê-los. Mas, se vender todos os jogadores no momento em que atingem seu maior valor de mercado, pode enfraquecer justamente o time que deveria produzir títulos, premiações e novas valorizações. A SEP parece ter escolhido, em 2026, empurrar parte dessa conta para frente. Não é necessariamente erro, e sim uma decisão com custo, risco e expectativa de retorno esportivo.

A questão que o déficit de R$ 196 milhões deixa para o Palmeiras, portanto, é mais interessante do que o próprio número. Até onde o clube pode aceitar pressão financeira no presente para preservar competitividade no campo? A resposta não estará apenas no próximo balanço, mas no que acontecer com as três competições, nas premiações conquistadas e na capacidade de transformar novamente desempenho esportivo em receita. O Verdão descobriu em 2026 que o dinheiro de uma venda pode ser contado imediatamente, mas o valor de manter um jogador só aparece depois. No futebol, o depois costuma ser a parte mais cara da planilha.