Números provam que Palmeiras supera ausência de Abel, mas suspensão expõe problema tático
João Martins e Vitor Castanheira já provaram que conhecem os mecanismos do trabalho. O desafio contra o Fluminense será transformar esse conhecimento A susp...
João Martins e Vitor Castanheira já provaram que conhecem os mecanismos do trabalho. O desafio contra o Fluminense será transformar esse conhecimento
A suspensão de Abel Ferreira para o primeiro duelo da semifinal da Libertadores contra o Fluminense cria um daqueles problemas que não aparecem na escalação, mas podem aparecer no campo. E aqui está a diferença. Não é novidade para o Palmeiras jogar sem seu treinador. O clube já passou por isso várias vezes, acumulou vitórias, classificações e boas atuações. Portanto, vender a ausência de Abel como uma espécie de tragédia tática seria exagero. O problema é outro e certamente bem mais complexo.
O Palestra sabe executar o plano de Abel sem Abel, mas como reage quando o plano deixa de funcionar? É essa resposta que a semifinal colocará à prova. O Gajo já ficou fora de partidas importantes por suspensão desde que chegou nas Alamedas, e o histórico mostra justamente essa contradição. Em 2020, suspenso, viu Vitor Castanheira comandar a equipe no empate por 2 a 2 com o Ceará, resultado que garantiu a classificação por 5 a 2 no agregado.
Em 2022, João Martins comandou o Palmeiras em vitórias expressivas contra Deportivo Táchira e Independiente Petrolero, por 4 a 0 e 8 a 1. Em 2023, novamente suspenso, Abel ficou fora da ida das quartas da Copa do Brasil contra o São Paulo. O Palmeiras perdeu por 1 a 0. Portanto, os números não permitem dizer que o time simplesmente desmorona sem o português. Mas também mostram que existe uma diferença brutal entre administrar um jogo e encontrar uma saída quando o adversário muda a pergunta.
O caso do Ceará talvez seja o exemplo mais didático. O Palmeiras havia vencido a ida por 3 a 0 e entrou no Castelão carregando uma vantagem que permitia administrar o confronto. Vitor Castanheira assumiu o banco em uma partida ainda mais complicada porque o elenco tinha 15 jogadores afastados por Covid-19, além de outros desfalques. O Palestra abriu 2 a 0, sofreu o empate e avançou com 5 a 2 no agregado. É um ótimo exemplo de que o trabalho da comissão não desaparece quando Abel sai do banco.
O Verdão funciona sem Abel, mas sua presença é crucial por um detalhe
O modelo está treinado, os comportamentos estão incorporados e existe uma estrutura capaz de funcionar. Só que aquele contexto tinha uma característica que a semifinal contra o Fluminense não terá: o Palmeiras não precisava descobrir uma solução urgentemente nova para continuar vivo, basta analisar os dados atuais de rendimento.
O São Paulo de 2023 oferece justamente o contraponto. João Martins chegou ao Morumbi com um retrospecto impressionante como substituto de Abel: 21 partidas, 12 vitórias, oito empates e apenas uma derrota. Na ida das quartas de 2023, veio novamente a derrota por 1 a 0. E o mais interessante está na tentativa de encontrar uma resposta. Sem peças importantes, a comissão apostou em uma formação com três zagueiros. O time começou competitivo, mas perdeu capacidade de criação ao longo da partida e encontrou dificuldades para construir diante da marcação do adversário.
É aqui que a análise fica mais incômoda. Abel não é importante apenas porque escala o time, define o sistema ou prepara a partida durante a semana. O português é, também, uma espécie de central de ajustes da SEP. É ele quem passa boa parte dos 90 minutos tentando interpretar o que está acontecendo: se o ala está exposto, se o volante precisa baixar, se o atacante precisa atacar outro espaço. Algumas dessas correções chegam por substituições. Outras são feitas simplesmente com orientação e mudança de posicionamento. Sem Abel, nada disso desaparece. Mas a voz que normalmente organiza essa transformação deixa de estar dentro do jogo.
O Fluminense oferece justamente um adversário capaz de explorar essa questão. Se o Palmeiras iniciar com três zagueiros e alas agressivos, por exemplo, poderá encontrar vantagem numérica na construção e ocupar melhor os corredores. Mas o mesmo desenho pode produzir espaços às costas dos alas. Se o Fluminense conseguir explorar isso, será necessário decidir rapidamente entre manter a agressividade, proteger os corredores ou modificar a estrutura.
O mesmo vale para a saída de bola. Se o meio for congestionado, o Palmeiras poderá precisar aproximar um meia, abrir um atacante ou alterar a altura dos laterais. São pequenas mudanças que, isoladamente, parecem simples. Em uma semifinal de Libertadores, entretanto, podem definir quem controla o jogo. João Martins já mostrou que consegue conduzir o time, e a comissão técnica conhece profundamente os conceitos trabalhados pelo treinador. O Palmeiras não vai entrar em campo sem identidade.
A missão é manter a identidade da ‘equipa’
A questão é mais sofisticada: até onde essa identidade consegue se adaptar sem a presença do seu principal comandante? Porque existe uma diferença entre saber o que Abel quer e perceber, em tempo real, que aquilo que Abel planejou deixou de funcionar. A partida contra o São Paulo em 2023 mostra o tamanho desse detalhe. O Palmeiras não foi para o Morumbi sem plano. Tinha sistema, tinha organização e começou a partida competitivo. Mas, conforme o adversário conseguiu dificultar a construção, o time perdeu fluidez.
O jogo foi ficando mais amarrado, as soluções ofensivas diminuíram e o São Paulo encontrou o gol. É justamente esse tipo de cenário que interessa agora. Uma semifinal não precisa ser decidida por uma grande invenção. Pode ser decidida pela capacidade de perceber cinco minutos antes que alguma coisa está dando errado. E cinco minutos, em Libertadores, podem custar uma classificação.
Existe ainda uma ironia no histórico recente de Abel: o Fluminense já apareceu como adversário em uma das suspensões que mais repercutiram na temporada de 2026. Agora, depois da expulsão diante da LDU, o treinador novamente ficará fora de um confronto contra o clube carioca, só que desta vez em uma semifinal continental. O contexto é completamente diferente, mas a coincidência não deixa de chamar atenção.
Palestra em teste de maturidade
O histórico deixa uma conclusão mais interessante do que qualquer retrospecto de vitórias e derrotas. O Palmeiras já provou que consegue jogar sem Abel. Ainda não existe a mesma quantidade de evidências para afirmar que consegue reagir sem Abel. E essa diferença pode ser decisiva contra o Fluminense. Se o plano inicial funcionar, João Martins e a comissão terão a missão de conduzir uma equipe que conhece perfeitamente seus mecanismos.
Se o jogo fugir do roteiro, porém, será necessário encontrar respostas sem a presença do homem que normalmente passa 90 minutos tentando antecipar essas respostas. Talvez esse seja o verdadeiro teste de maturidade do Palmeiras: não provar que Abel é substituível, mas mostrar que o trabalho de Abel construiu uma equipe capaz de pensar o jogo mesmo quando ele não pode estar à beira do campo.