Opinão: Após protesto confuso, Abel tem desafio maior que a pressão: reinventar o Palmeiras
A manifestação desviou o foco do que realmente precisa ser discutido no Palmeiras. Abel não é o único ponto da equação, mas precisa encontrar novas respo...
A manifestação desviou o foco do que realmente precisa ser discutido no Palmeiras. Abel não é o único ponto da equação, mas precisa encontrar novas respostas
O protesto da torcida do Palmeiras me deixou mais confuso do que preocupado. Primeiro, parecia uma mensagem direta contra Abel Ferreira. Depois, veio a explicação de que aquilo fazia parte de uma estratégia para chamar atenção para outras críticas. A intenção pode até ter sido diferente, mas o efeito foi inevitável: por algumas horas, a discussão sobre o Verdão passou a girar em torno de uma pressão que não era exatamente aquilo que parecia.
E aqui está a minha principal inquietação: enquanto discutíamos se Abel deveria ou não ser cobrado, deixamos em segundo plano uma pergunta muito mais importante: o Palmeiras precisa mudar? Para mim, sim. O empate com o Cerro Porteño não transforma o treinador no problema, mas reforça uma percepção que já vinha aparecendo: algumas soluções do time deixaram de funcionar com a mesma eficiência. O 1 a 1 ainda complicou a classificação e obrigará o Pálestra a buscar a vitória no Paraguai.
Não vejo sentido em transformar Abel no culpado por tudo. Seria injusto com o trabalho que construiu na SEP. Mas também não consigo enxergá-lo como alguém imune a questionamentos. Existe uma diferença enorme entre pedir a saída de um treinador e cobrar que ele encontre novas respostas. Eu fico com a segunda opção. Abel não precisa necessariamente sair; precisa se superar.
Porque o que me incomoda é a sensação de que o Palmeiras continua tentando resolver problemas novos com algumas respostas antigas. Os adversários já entenderam muitos dos mecanismos do time, fecham espaços e dificultam a progressão. Quando as alternativas não aparecem, o jogo fica previsível. E quando um time se torna previsível, até o domínio territorial pode deixar de representar perigo.
É preciso mudar, o perigo já está escancarado
É justamente aí que Abel precisa colocar sua capacidade à prova. Não estou falando apenas em trocar jogadores ou modificar o desenho no papel. Mudança tática de verdade significa alterar ocupação de espaços, movimentos, mecanismos de saída e formas de atacar quando o adversário consegue neutralizar o caminho habitual. Se o modelo atual perdeu rendimento, insistir nele apenas porque funcionou no passado pode ser mais perigoso do que admitir a necessidade de mudança.
O jogo contra o Cerro mostrou que o Alviverde ainda tem capacidade de reação. Mesmo com um jogador a menos, o time conseguiu marcare colocar a classificação em uma situação favorável. Só que sofreu o empate nos acréscimos e agora terá de decidir tudo fora de casa. Um erro individual, como o de Carlos Miguel, explica um gol, mas não explica sozinho uma sequência de dificuldades. Por isso, para mim, o problema precisa ser analisado de maneira mais ampla.
É exatamente por isso que considero o protesto tão contraproducente. Quando uma manifestação parece pedir a saída do treinador e depois é apresentada como uma estratégia, ela acaba embaralhando uma discussão que deveria ser muito mais clara. A torcida tem todo o direito de cobrar, mas a cobrança precisa ajudar a identificar o problema. Caso contrário, Abel vira o centro da conversa, a torcida se divide e o futebol fica em segundo plano.
O maior desafio de Abel
Eu prefiro outra cobrança. Quero que Abel seja pressionado pela exigência que ele próprio criou. Quero que olhe para este Palmeiras e perceba se o time ainda consegue surpreender os adversários como antes. O protesto pode ter sido fake. A necessidade de mudança, não. Talvez esse seja justamente o maior desafio do treinador agora: não apenas classificar o Maior Campeão do Brasil, mas reinventá-lo antes que a previsibilidade se transforme em uma crise de verdade.