Opinião: Abel Ferreira escapa da suspensão, mas Palmeiras não foge de um problema
O histórico disciplinar de Abel passou a cobrar o seu preço O limite tênue entre a energia que move a equipe e o excesso que gera munição aos tribunais De...
O histórico disciplinar de Abel passou a cobrar o seu preço O limite tênue entre a energia que move a equipe e o excesso que gera munição aos tribunais
Depois de ser punido pelo STJD com dois jogos de suspensão pelo chute em um microfone durante o empate com o Mirassol, neste sábado (5), Abel Ferreira recebeu efeito suspensivo e, por enquanto, está liberado para comandar a equipe até que o recurso do Palmeiras seja analisado. A decisão muda completamente o cenário imediato do Verdão, que terá seu comandante à disposição justamente na entrada de uma reta em que cada partida pode interferir diretamente no caminho pelos títulos.
Mas, na minha visão, o efeito suspensivo resolve apenas a consequência esportiva mais urgente. É preciso reconhecer que o julgamento não foi uma questão simples. O relator chegou a votar pela absolvição de Abel, enquanto outros votos apontaram para punição, até que a reincidência pesou para a definição dos dois jogos de suspensão. Portanto, existe espaço para discutir juridicamente a decisão e até questionar se a pena foi proporcional.
O calendário ajuda a dimensionar o tamanho do alívio provocado pelo efeito suspensivo. O Maior Campeão do Brasil chega a uma sequência na qual não existe espaço para tratar jogos como compromissos comuns: encara o Botafogo fora de casa e, na sequência, o São Paulo pelo Brasileirão, enquanto também precisa administrar a caminhada na Libertadores. E há um componente adicional de pressão na tabela: o Flamengo se aproximou da liderança e pode assumir a ponta caso o Verdão não vença o Botafogo. Em uma reta assim, preservar todas as ferramentas disponíveis não é luxo. É necessidade.
Os números da última suspensão ajudam a entender essa necessidade sem criar uma dependência artificial. Quando Abel ficou sete partidas afastado pelo Brasileirão, o Palmeiras não desmoronou: foram três vitórias, três empates e apenas uma derrota. João Martins mostrou que existe trabalho e estrutura suficientes para manter a equipe competitiva, e seu aproveitamento histórico de 63,16% em 38 jogos é próximo dos 66,58% de Abel em 405 partidas. Portanto, seria exagero dizer que o Verdão não consegue jogar sem seu treinador.
A presença de Abel é essencial, embora não há margem para dramas
Mas existe uma diferença que merece atenção. Naqueles sete jogos sem Abel, o Alviverde marcou apenas sete gols. Com o português no banco, foram 17 gols no recorte correspondente. O número, isoladamente, não prova que a presença de Abel determina o desempenho ofensivo, mas mostra que existe uma alteração de funcionamento que não pode ser simplesmente ignorada. E é justamente por isso que a discussão ganha peso agora: em uma sequência na qual o Palmeiras precisa transformar oportunidades em pontos, abrir mão voluntariamente de um recurso que pode fazer diferença seria uma escolha difícil de justificar.
É aqui que o efeito suspensivo ganha um significado maior. Abel não precisava necessariamente estar no banco para que o Palmeiras continuasse competitivo, mas o clube também não deveria ser obrigado a descobrir, justamente agora, até onde consegue funcionar sem ele. Se o treinador está disponível, se João Martins oferece uma alternativa segura e se o elenco tem qualidade para atravessar momentos de ausência, melhor ainda. A questão não é escolher entre Abel e sua comissão. É simplesmente não criar uma ausência que poderia ser evitada.
A intensidade do comandante precisa ser equilibrada
Por isso, o efeito suspensivo deve ser encarado como uma solução para o presente, e não como o ponto final da discussão. Abel recupera o direito de comandar o time, mas continua precisando lidar com a razão que o levou aos tribunais. Seu histórico disciplinar reduziu a margem para novos erros, e a reincidência foi justamente um dos elementos considerados no julgamento. O episódio contra o Mirassol, portanto, não pode ser analisado apenas como uma explosão isolada de um treinador conhecido pela intensidade.
Essa intensidade, aliás, não precisa ser apagada. Seria até contraditório pedir que Abel abandonasse uma das características que ajudaram a construir sua trajetória no Palmeiras. Sua energia, cobrança e inconformismo fazem parte da personalidade competitiva que marcou uma das eras mais vencedoras da história do clube. O problema aparece quando uma virtude deixa de produzir vantagem e começa a criar vulnerabilidades.
Abel precisa entender que a reta decisiva também exige escolhas fora do campo. O Palmeiras já terá de administrar desgaste físico, lesões, viagens, pressão por resultados e a necessidade de equilibrar diferentes competições. Não há razão para acrescentar a esse pacote uma incerteza disciplinar criada por uma reação que o próprio treinador pode controlar. Em uma temporada na qual cada detalhe pode decidir um título, eliminar riscos evitáveis deveria ser uma obrigação, não uma opção.
A crítica a Abel não precisa ignorar a possibilidade de exageros nos tribunais, tampouco transformar toda reclamação sua em problema. É possível defender o treinador em determinados episódios e, ao mesmo tempo, reconhecer que ele precisa rever alguns comportamentos. Afinal, os números mostram que o Palmeiras consegue sobreviver sem ele, mas também indicam que sua presença pode oferecer recursos adicionais ao funcionamento da equipe.
Alerta total para a reta final da temporada
O efeito suspensivo, portanto, devolve Abel ao banco em um momento que exige justamente o máximo de estabilidade do Palmeiras. É uma boa notícia esportiva para o clube, mas também deveria servir como último alerta para o treinador. Ele não precisa deixar de ser intenso, competitivo ou inconformado. Precisa apenas entender que autocontrole também é uma ferramenta de liderança. Na reta mais importante da temporada, proteger o Palmeiras de uma ausência evitável pode ser tão importante quanto encontrar uma nova formação, corrigir um problema tático ou escolher o jogador certo para decidir uma partida.