Opinião: Palmeiras de Leila descobre que não pode viver apenas de estabilidade
A estabilidade foi uma das forças que transformaram o Palmeiras em potência. Agora, o desafio é impedir que essa mesma força vire acomodação Sempre enxer...
A estabilidade foi uma das forças que transformaram o Palmeiras em potência. Agora, o desafio é impedir que essa mesma força vire acomodação
Sempre enxerguei a estabilidade como uma das maiores virtudes do Palmeiras. Em um futebol brasileiro acostumado a trocar treinadores, projetos e convicções com enorme velocidade, o clube encontrou na continuidade uma vantagem competitiva. Mas existe uma pergunta que começa a se impor: será que a estabilidade que trouxe o Palestra até aqui também está impedindo o clube de acelerar a própria renovação?
A questão aparece primeiro dentro de campo. O Verdão construiu sua força com organização, controle dos espaços e equilíbrio entre defesa e ataque. Só que, diante de adversários compactos, o time precisa oferecer mais alternativas: variar a saída de bola, aproximar os jogadores entrelinhas, alternar a altura dos laterais e criar superioridade em zonas diferentes do campo. Não basta controlar; é preciso encontrar novas maneiras de desequilibrar.
E aí que o mercado da bola também entra na discussão. A gestão de Leila Pereira acertou ao preservar uma lógica financeira mais responsável, mas isso não significa que suas escolhas estejam acima de questionamentos. O Palmeiras precisa avaliar se está contratando para preencher lacunas reais do elenco ou simplesmente aproveitando oportunidades que aparecem. Afinal, uma contratação pode ser considerada como correta e, ainda assim, resolver pouco dentro de campo.
Também existe a questão do timing. O Clube não pode entrar em toda janela desesperado para contratar, mas a cautela também tem um limite. Quando uma necessidade esportiva permanece aberta por muito tempo, esperar pela oportunidade perfeita pode significar chegar tarde demais. Um clube que pretende disputar todos os títulos precisa ter planejamento suficiente para antecipar problemas, e não apenas reagir quando eles já aparecem.
Da tática à prática: é preciso se mobilizar para seguir no topo
Isso vale especialmente quando olhamos para o repertório ofensivo. Se o time encontra dificuldades para furar blocos baixos, não adianta apenas pedir que os mesmos jogadores executem melhor os mesmos movimentos. É preciso criar novas soluções, e isso pode vir do treinamento, da mudança de funções ou de contratações com características realmente complementares às que já existem no elenco.
Não vejo, portanto, motivo para transformar Leila em vilã ou Abel em culpado. A questão é maior. Se a SEP conseguiu construir uma estrutura tão estável, agora precisa usar essa estabilidade para planejar a próxima transformação. A diretoria precisa olhar para o mercado com a mesma precisão que o treinador deveria olhar para o campo: identificar onde está a limitação antes que ela vire uma crise.
Gosto de pensar que grandes ciclos não terminam necessariamente quando tudo dá errado. Às vezes, eles chegam ao momento em que precisam se transformar. O Alviverde construiu sua força justamente porque aprendeu a não agir por impulso. Mas existe uma diferença entre não se desesperar e não se mexer. No futebol, esperar demais também é uma escolha — e algumas escolhas custam oportunidades.
A hora é de manter a essência e partir para questionamentos internos
Por isso, talvez o grande desafio do Palmeiras seja justamente este: preservar a estabilidade sem transformá-la em imobilidade. Abel precisa ampliar suas soluções dentro do campo, e Leila precisa garantir que o elenco tenha peças capazes de sustentar essa evolução. O Maior Campeão do Brasil precisa olhar para dentro e perguntar quais mecanismos ainda produzem vantagem e quais precisam ser atualizados. Talvez a estabilidade que o tornou imbatível tenha cumprido sua primeira missão. Agora, ela precisa servir como ponto de partida para uma nova evolução, porque continuar sendo o mesmo, no futebol, também pode significar começar a ficar para trás.