Opinião: Palmeiras pode driblar o déficit e chegar a 2027 com uma liberdade que o caixa não tinha
Déficit de R$ 196 milhões é grave, mas já não conta sozinho a história do caixa. Receitas mudaram o enquadramento e colocaram o Palmeiras diante de outra ...
Déficit de R$ 196 milhões é grave, mas já não conta sozinho a história do caixa. Receitas mudaram o enquadramento e colocaram o Palmeiras diante de outra equação financeira
O Palmeiras chegou a agosto com um problema daqueles que cabem mal em qualquer manchete: déficit de R$ 196 milhões. O número é grande. E não adianta maquiá-lo com maquiagem de balanço. Só o balancete não conta tudo o que aconteceu depois. Allan ainda não estava na fotografia. Kaique e Riquelme Fillipi também não. O filme continuou rodando. A venda de Allan ao Manchester City, por cerca de R$ 220 milhões fixos, mudou imediatamente a paisagem.
As negociações de jogadores já chegaram a aproximadamente R$ 375 milhões em 2026. A meta orçamentária é de R$ 399,6 milhões. Traduzindo do financês: a SEP, que passou boa parte do ano convivendo com a necessidade de vender, ficou muito perto de cumprir aquilo que havia previsto para o mercado. E isso antes de colocar na conta todo o dinheiro produzido pelo campo.
Aqui começa a parte que considero importante, pois o clube arrecada porque continua jogando. Desta forma, já acumulou R$ 60,69 milhões em premiações em 2026. A Libertadores responde por R$ 37,69 milhões desse total, depois da classificação para a semifinal contra a LDU. A conta ainda pode crescer. E bastante.
Não é detalhe. O Verdão montou um elenco para três competições. Isso custa dinheiro. Muito dinheiro. Manter jogadores importantes quando o mercado aparece com propostas também custa dinheiro. Em determinado momento, o caixa pagou a conta da ambição esportiva. Agora, existe a possibilidade de o campo começar a devolver parte dela. Gosto dessa inversão porque ela desmonta uma leitura muito fácil sobre o déficit. O Palmeiras gastou mais para ser competitivo. Certo. Mas ser competitivo também passou a produzir receita. Quanto mais longe vai, mais recebe. É uma engrenagem simples, só não é automática. É preciso chegar lá.
A Libertadores mostra isso quase didaticamente. Antes das quartas de final, eram R$ 25,84 milhões acumulados. A classificação diante da LDU acrescentou R$ 11,85 milhões. Chegou a R$ 37,69 milhões. Somados os valores de Paulista e Copa do Brasil, os R$ 60,69 milhões apareceram no placar financeiro. E ainda há semifinal pela frente. Depois, quem sabe, final. O dinheiro não precisa de discurso motivacional. Ele simplesmente acompanha a campanha.
O ‘pulo do gato’ para sanar o déficit Alviverde
Contudo, não considero os R$ 60,69 milhões como um simples bônus. Eles podem funcionar como uma segunda margem de segurança. De um lado, o mercado de jogadores. Do outro, o desempenho esportivo. Um ajuda a cumprir a meta de vendas. O outro aumenta a receita das competições. No meio disso está o elenco que produziu os dois. Aqui Allan volta à história. A venda ao Manchester City, na casa dos R$ 225 milhões fixos, aproximou o Palestra da meta anual de negociações. Isso pode ter uma consequência esportiva importante. O clube passa a ter menos necessidade de vender outro jogador apenas para fazer o orçamento fechar. E uma venda deixa de ser uma obrigação contábil para voltar a ser uma escolha.
Quando o clube precisa vender, a pergunta é: quanto dinheiro precisamos colocar no caixa? Quando não precisa, a pergunta pode ser outra: quanto desempenho estamos dispostos a perder por esse dinheiro? É uma mudança enorme de perspectiva. E pode ser uma das heranças financeiras mais importantes de 2026 para 2027. Porque o elenco do próximo ano já começa a ganhar forma. Gustavo Gómez, Murilo e Flaco López, têm vínculos longos. Há ainda os atletas emprestados que terão de passar pelo crivo do planejamento. Mas a espinha dorsal está protegida.
Isso significa que Leila Pereira não precisa pegar o dinheiro das premiações e correr para contratar dez jogadores. Aliás, espero que ninguém tenha essa ideia. A primeira utilidade desse dinheiro pode ser justamente permitir que o clube não precise desmontar o que funciona. Preservar também é uma forma de investimento.
O ciclo que se retroalimenta com planejamento
O raciocínio fica quase circular. A SEP protege o elenco. O elenco compete. A competição produz premiação. A premiação reduz parte da pressão. Menor pressão permite proteger o elenco novamente. Trata-se de uma engrenagem que começa a girar em favor do planejamento. Por isso, os R$ 196 milhões de déficit até agosto não podem ser ignorados. Mas também não podem ser tratados como sentença definitiva para 2026. O balancete é uma fotografia. Allan, Kaique, Riquelme Fillipi e as premiações posteriores mudam o enquadramento.
O resultado final ainda dependerá de receitas, despesas e contabilizações que não estão todas consolidadas. Prudência aqui é matemática. O que já dá para perceber é que o Alviverde pode terminar 2026 muito diferente de como chegou ao segundo semestre. Com aproximadamente R$ 375 milhões em vendas, perto da meta de R$ 399,6 milhões, e R$ 60,69 milhões em premiações acumuladas, o clube começa a construir uma margem que não existia com a mesma clareza alguns meses atrás.
Essa margem interessa muito mais a 2027 do que a 2026, porque o maior ganho talvez não seja contratar. É escolher. Escolher se vende. Escolher quando vende. Escolher quem substitui. Escolher quanto vale preservar um jogador. Escolher se uma proposta extraordinária realmente melhora o Verdão ou apenas melhora o balanço. No futebol brasileiro, isso não é pouca coisa.
Como alcançar a tal liberdade?
O Palmeiras entrou em 2026 tentando provar que era possível disputar três competições sem desmontar o elenco para equilibrar o caixa. Pagou um preço por essa escolha. Agora, curiosamente, o próprio futebol pode ajudar a pagar parte da conta. É por isso que eu vejo as premiações de 2026 como algo maior do que dinheiro entrando. Elas podem comprar tempo, e, sobretudo, podem comprar liberdade.
Se as vendas terminarem próximas ou acima da meta e as campanhas continuarem produzindo receitas, o Palmeiras poderá chegar a 2027 menos pressionado a negociar e mais capaz de decidir. O déficit continuará sendo um problema. As despesas continuarão existindo. A responsabilidade financeira não desaparece porque o time chegou à semifinal. Mas há uma diferença fundamental entre administrar um elenco sob pressão e administrar um elenco com margem. No primeiro caso, o mercado decide por você, no segundo, talvez você consiga decidir pelo mercado.