Vitor Roque coloca Abel Ferreira diante de dilema tático entre tempo e exigência
O problema não está apenas em quanto Vitor Roque pode jogar neste momento. Está em descobrir como utilizá-lo sem cobrar do atacante aquilo que ele ainda rec...
O problema não está apenas em quanto Vitor Roque pode jogar neste momento. Está em descobrir como utilizá-lo sem cobrar do atacante aquilo que ele ainda recupera
Vitor Roque chegou a um ponto em que o Palmeiras precisa separar duas coisas que podem parecer iguais, mas não são: recuperar um jogador e encontrar a melhor maneira de utilizá-lo enquanto esse processo acontece.A diferença ganhou peso depois da cobrança pública de Abel Ferreira sobre a condição física do atacante, afirmando que o camisa 9 ainda não está em boa forma. O problema é que o calendário não oferece ao Palmeiras o luxo de esperar indefinidamente.
É preciso reconhecer o contexto antes de qualquer julgamento. Vitor Roque passou por cirurgia no tornozelo esquerdo e ficou cerca de três meses afastado dos gramados. Desde o retorno, disputou 11 partidas e não completou 90 minutos em nenhuma delas. A queda de rendimento, portanto, não pode ser analisada como se o atacante estivesse vivendo simplesmente uma fase ruim. Existe um processo físico em andamento, e recuperar explosão, confiança e ritmo depois de uma interrupção desse tamanho exige tempo.
O ponto é que o Verdão também está atravessando uma fase em que o tempo se tornou um recurso escasso. Santos, Botafogo e LDU aparecem no caminho em uma sequência que mistura Copa do Brasil, Brasileirão e Libertadores. Em partidas desse peso, a margem para utilizar jogadores apenas pensando no futuro diminui. Vitor Roque precisa voltar a ser protagonista, mas a SEP não pode transformar cada jogo decisivo em uma etapa obrigatória de recuperação do atacante.
Ao mesmo tempo, seria equivocado transformar Flaco López em um concorrente direto e obrigatório de Vitor Roque. Abel já mostrou que os dois podem coexistir, e essa possibilidade amplia o debate. O argentino pode oferecer presença física, jogo de apoio e capacidade de retenção, enquanto Roque tem como uma de suas principais armas o ataque à profundidade e a aceleração sobre os espaços. Dependendo do adversário e da estrutura escolhida, um pode criar condições para que o outro seja ainda mais perigoso.
Flaco e Roque juntos: a fórmula do sucesso
Essa combinação, inclusive, pode ser uma das alternativas mais interessantes para o Palestra. Com Flaco funcionando como uma referência mais fixa e participando da construção, Vitor Roque pode ter mais liberdade para sair da referência, atacar os espaços entre zagueiros e explorar sua velocidade. Não significa que esse desenho resolverá automaticamente os problemas do atacante, mas mostra que a discussão precisa ir além da pergunta sobre quem será o centroavante titular.
O verdadeiro desafio está em encontrar a configuração que maximize as características dos dois. E é justamente aí que aparece a parte mais delicada para Abel Ferreira. O treinador precisa encontrar uma forma de acelerar a evolução de Vitor Roque sem exigir dele aquilo que seu corpo ainda não consegue entregar durante 90 minutos. Dar minutos ao atacante é necessário, mas a utilização também precisa considerar intensidade, função e contexto. Em determinados cenários, ele pode ser mais útil começando a partida; em outros, pode entrar contra uma defesa desgastada.
Recuperar Vitor Roque, a missão
Os números ajudam a dimensionar o contraste. Em 2025, Vitor Roque terminou com 20 gols e cinco assistências em 56 partidas pelo Alviverde. Em 2026, são sete gols e uma assistência em 29 jogos, com participação menor e uma sequência de interrupções físicas que impediram qualquer continuidade. Os números não explicam tudo, mas mostram que existe uma distância considerável entre o jogador que justificou o investimento do clube e aquele que voltou recentemente aos gramados.
Recuperar essa versão anterior exigirá mais do que simplesmente mantê-lo em campo. Por isso, a fala de Abel também merece ser observada por outro ângulo. Ao dizer publicamente que Vitor Roque precisa recuperar a forma, o treinador reconheceu que existe um problema esportivo a ser resolvido. Mas isso abre uma pergunta inevitável: como administrar a recuperação sem comprometer o rendimento do time? A resposta pode estar justamente na capacidade de variar sua utilização.
Vitor Roque não precisa necessariamente perder espaço para Flaco; pode ganhar novas funções, dividir o setor ofensivo com o argentino e receber cargas diferentes até recuperar plenamente sua condição. Existe ainda uma questão de meritocracia que não pode ser ignorada. Abel construiu parte de sua trajetória justamente valorizando competição interna e rendimento, mas isso não significa que toda disputa precise produzir um vencedor e um perdedor.
Se Flaco estiver oferecendo mais em determinada função, deve ser utilizado. Se Roque for a melhor opção para atacar profundidade, também deve ter espaço. E, se os dois juntos apresentarem uma combinação capaz de potencializar o ataque, a própria lógica da equipe precisa permitir essa alternativa. No fim, o desafio de Abel não é escolher entre acreditar em Vitor Roque ou confiar em Flaco López.
O desafio para Abel
É entender como transformar os dois em soluções diferentes para um Palmeiras que terá pouco tempo para corrigir seus problemas antes das decisões. O clube precisa recuperar o atacante que contratou para ser decisivo, mas também precisa vencer os jogos que estão diante dele agora. Contexto explica o momento de Vitor Roque, mas não determina sua função. Ele ainda está voltando — e talvez o caminho para fazê-lo reencontrar seu melhor futebol não seja afastá-lo da equipe, mas encontrar o lugar certo para que suas melhores características voltem a aparecer.